Sobre os ossos dos mortos
Sinopse: Em uma remota região da Polônia, Janina, uma professora de inglês aposentada, dedica-se ao estudo da astrologia, à poesia de William Blake, à manutenção de casas para alugar e a sabotar armadilhas para impedir a caça de espécies silvestres. A reputação de excêntrica é amplificada por sua simpatia – nada secreta – pela companhia dos animais, preferindo-os aos humanos, e pela crença na sabedoria advinda do estudo dos astros. Até que um de seus vizinhos, membro do clube de caça local, aparece morto. Logo, outros corpos são descobertos, todos em circunstâncias estranhas – e próximos de vestígios deixados por animais. Janina afirma que esses assassinatos seriam cometidos por animais selvagens determinados a se vingar dos homens por sua violência desmedida. A teoria se espalha pela região – junto com o medo.

Há muito, muito a se dizer dessa narrativa, mas para não escrever uma resenha enorme, vou me ater a um dos aspectos que achei dos mais relevantes: a variedade de temas. É impressionante como cada pessoa lê essa história por uma chave, atentando-se a um (ou mais) dos aspectos abordados. E como considero válido explorar (ao menos superficialmente) cada um deles, vamos por partes.
Começo por dizer que a narrativa tem um quê de romance policial, mas o que importa ali não é descobrir quem é o assassino, à la Agatha Christie; tanto que em vários momentos, me esqueci completamente dessa questão. O mistério policial, ao menos para mim, pareceu muito mais um pano de fundo para questões existenciais profundas, que envolvem nossa busca por um sentido na existência, tanto no que diz respeito a nós mesmos, quanto àqueles ao nosso redor. O que me leva ao segundo tópico.
Conforme exposto na sinopse acima, a astrologia é a forma pela qual a personagem central entende o mundo e procura organizá-lo, o que também traz à tona um forte debate sobre destino e livre-arbítrio, tema que nunca deixa de ser interessante.
Seguimos com outro assunto que acho dos mais ricos para a arte, de modo geral, que é a loucura. Janina é uma personagem bem excêntrica, isso é inegável. E aos olhos da maior parte das pessoas do vilarejo onde vive, não passa de uma velha louca. Também o leitor em alguns momentos tem essa impressão, mas o mais interessante é o quanto, ao mergulharmos na interioridade dela, nos damos conta de uma grande lucidez em seu raciocínio, muito coerente com suas crenças e valores. (Tudo misturado com mapas astrais, visões de fantasmas e – por que negar? – umas ideias bem piradas mesmo). Para mim, o que fica disso é a questão: O que, afinal, é a loucura? Será que nossa concepção corrente do termo não passa de uma limitação do nosso entendimento? E será que os loucos desse mundo não seriam, afinal, os mais lúcidos?
O próximo tema é bem evidente, e é por meio dele que a maior parte das pessoas interpreta o texto: a questão dos direitos dos animais e da caça ilegal (o que também puxa um outro assunto, que é a corrupção das autoridades). Forte defensora do vegetarianismo, Janina nos obriga a pensar em nossas decisões acerca do modo como enxergamos nossa espécie em relação a todas as outras e de como isso nos afeta. No mínimo, a personagem causa incômodo, tanto aos seus conterrâneos, quanto a nós, leitores.
Seguimos para outra grande questão existencial que é a religião. Aliás, uma das partes mais incríveis do livro é um sermão sobre como Deus colocou o homem na Terra para se tornar senhor de todas as outras formas de vida, escrito a partir de uma compilação de sermões reais, que são bem... insanidade pura.
E dentre muitos outros, termino com um que me chamou a atenção do começo ao fim que é a deslegitimação da mulher (em especial – como chamou à atenção uma colega do clube – da "mulher velha"). Janina é constantemente ignorada, alvo de zombarias, agressões verbais; e o que me pareceu o pior: uma terrível condescendência que é de deixar qualquer um ruim das ideias mesmo.
Para fechar (porque afinal, contrariando todas as minhas boas intenções, a resenha já está enorme), acho importante frisar apenas mais uma coisa: a humanidade da personagem central. Contraditória, única e cheia de camadas, gostemos dela ou não, simpatizemos ou não com suas crenças e valores, não há como negar que Janina é tão real e complexa quanto qualquer um de nós. E isso, em minha humilde opinião, é o maior trunfo que qualquer romance pode ter.
Mas e você? Já leu ou se interessou por Sobre os ossos dos mortos? O que achou? Me conta aqui embaixo nos comentários. É sempre bom saber que não estou escrevendo para o além.
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