3 dicas para escrever para crianças
Faltam 5 dias para o Dia das Crianças! Por isso hoje estou passando para dar 3 dicas para escritores interessados em escrever para crianças.

Dica 1: Um bom livro agrada adultos e crianças
Já se perguntou do que é preciso para fazer uma criança gostar de ler? Depois de alguns anos de estudo e atuação docente, já me deparei com todo o tipo de resposta, mas, sinceramente, a que mais me convence é a mais óbvia: você vai precisar de bons livros. Estímulo adequado, dar o exemplo, estratégias lúdicas... nada irá funcionar se o elemento fundamental for ruim.
Pensa comigo: você entra num restaurante lindo, é bem recebido, sua mesa é larga, a cadeira é confortável, os garçons são simpáticos e tudo parece estar indo muito bem. Daí você pede um clássico filé à parmegiana, mas quando o seu prato chega, a carne está crua, o molho é aguado e o queijo azedou.
Entendeu a analogia? Quem precisa brilhar num restaurante é a comida, certo?
Por alguma razão, muita gente acha que a literatura infantil não precisa ser tão boa assim, afinal "são apenas crianças" – e é por causa desse tipo de ideia errada que temos tanta dificuldade em formar novos leitores. Experimente conversar por cinco minutos com qualquer criança pra sentir o nível do senso crítico e depois me diga se eles estão dispostos a engolir qualquer coisa.
Se você quer escrever histórias infantis, ou apenas encontrar um bom livro de presente pro seu filho, a primeira dica que eu te dou é: ao invés de se perguntar se a criança iria gostar daquela história, pergunte-se se VOCÊ iria gostar daquela história. Os bons livros infantis não têm idade para serem apreciados.
Dica 2: Escreva o livro que as crianças querem ler
Quando você pensa nos livros que marcaram sua infância, o que te vem à cabeça? Sou capaz de apostar que não tem nada a ver com valores morais ou conhecimentos de mundo, mas com as histórias que te emocionaram.
Veja bem, não estou dizendo que boas histórias não ensinam. (Aliás, é exatamente o contrário: não conheço nenhuma forma melhor de aprender). Mas qualquer aprendizado dever ser uma consequência, não um objetivo!
A literatura é uma forma de arte – e portanto, um fim em si mesma. Você não pergunta às pessoas o que esperam aprender ao ligar a Netflix ou o Spotify, pergunta? Quem abre um livro quer uma coisa – e apenas uma: fruição. Por que seria diferente para as crianças?
Deixa eu te contar um segredo: as crianças são espertas. Elas sabem direitinho quando você está tentando empurrar gato por lebre, dizendo que alguma historinha rasa sobre a importância de cuidar da água é divertida.
Mas veja só: essa mesmíssima ideia é muito diferente de livros como Era uma vez um rio, de Martha Pannunzio, por exemplo. Isso porque essa não é uma história pedagógica. É a história de um menino que gostava de nadar, viu gente morrendo afogada, fazia parte do time de futebol "do lado de cá do rio", cresceu, foi estudar no exterior e depois voltou para ver um esgoto a céu aberto. (Sério. Só de escrever, já deu um nó na garganta).
Percebe a diferença? É isso. Não pense em ensinar. Pense em seduzir. Exatamente como você faria se estivesse escrevendo para um adulto.
Dica 3: Não fuja dos temas densos
Ao ser entrevistado sobre livros para crianças, o eminente ilustrador Edward Ardizzone disse que se não falarmos de temas difíceis com os pequenos, "não estaremos sendo honestos com eles".
A vida acontece. E nessa brincadeira, os avós se vão, os pais descobrem que o casamento não foi uma boa ideia, amigos se mudam de cidade – e quando estamos falando de crianças em situação de vulnerabilidade social, há coisas muito, mas muito mais terríveis. Crimes, mesmo.
Falar de temas densos com as crianças por meio da literatura é uma forma não-traumática de abordar os problemas e desafios que estão por vir (ou até já estão acontecendo). É um jeito de dar forma aos sentimentos, afinal, o que é o bicho-papão senão o medo sem forma? O que é o medo do escuro senão o medo daquilo que não se vê? Nominar é assenhorar-se do mundo, tomar as rédeas da situação.
E abrir os olhos das crianças não é o mesmo que traumatizá-las. É uma "vacina literária" contra o mundo.
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